Partiu da secretária-executiva da Casa Civil, braço direito da ministra Dilma Rousseff, a ordem para a organização de um dossiê com todas as despesas realizadas pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, sua mulher Ruth e ministros da gestão tucana a partir de 1998. O banco de dados montado a pedido de Erenice Alves Guerra é paralelo ao Suprim, o sistema oficial de controle de despesas com suprimentos de fundos do governo.
O governo nega tratar-se de um dossiê. A interlocutores Erenice se responsabiliza pela decisão de organizar processos de despesas de FHC, isentando a chefe de ter tomado a decisão. Ela é conhecida como “faz-tudo” de Dilma, sendo a funcionária mais próxima da ministra que Luiz Inácio Lula da Silva vê como presidenciável para 2010.
Quando o trabalho começou a ser feito, corriam as negociações no Congresso para investigar gastos com cartões corporativos do presidente Lula. Por pressão de governistas, as investigações recuariam ao período de governo tucano. O banco de dados avançara sobre parte do material guardado no arquivo morto, num dos prédios anexos do Planalto.
Na primeira semana após o Carnaval, segundo a Folha apurou, Erenice marcou reunião no Planalto com membros da Secretaria de Administração, da Secretaria de Controle Interno da Presidência e de outras áreas da Casa Civil. Solicitou que fossem cedidos funcionários de cada área para que se criasse uma força-tarefa encarregada de desarquivar documentos referentes aos gastos do governo anterior a partir da rubrica suprimento de fundos, que inclui cartões corporativos e contas “tipo B” (despesa justificada por nota depois de o servidor receber uma determinada verba).
A Folha apurou que Erenice justificou a empreitada aos subordinados alegando ser preciso fazer o levantamento para atender a eventuais demandas da CPI dos Cartões e destacou sua chefe-de-gabinete, Maria de La Soledad Castrillo, para coordenar os trabalhos.
A seleção e a organização de despesas do governo FHC durou um mês e meio, até os primeiros lançamentos das despesas no Suprim -que seria o destino das informações. Com a publicação da última edição da revista “Veja”, em que trechos do relatório com 13 páginas a que a Folha teve acesso ontem foram divulgados, os dados passaram a ser digitados diretamente no Suprim.
Por isso a Casa Civil afirma que as informações “vazadas” à imprensa seriam fragmentos de relatórios de gastos ainda em fase de digitação.
Para governo, caso é grave e exige resposta rápida de ministra
A cúpula do governo avalia que a situação política da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, se agravou e que ela precisa dar uma resposta rápida. Do contrário, corre risco de cair. Segundo apurou a Folha, essa resposta seria a demissão dos servidores da Casa Civil que elaboraram um dossiê sobre gastos secretos do governo Fernando Henrique Cardoso.
A ordem para elaborar o dossiê partiu de Erenice Guerra, secretária-executiva da Casa Civil, auxiliar de Dilma.
No segundo mandato, é a primeira vez que um membro poderoso do governo e próximo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é ligado a um escândalo. Lula tem tentado viabilizar o projeto presidencial de Dilma, nome que hoje gostaria de emplacar como candidata na eleição de 2010. Um escândalo político tende a enfraquecer a articulação presidencial.
Anteontem, o governo montou uma operação para blindar Dilma. Impediu sua convocação para depor na CPI dos cartões corporativos e escalou o ministro José Múcio (Relações Institucionais) para dizer que ela era “inocente“. Lula a levou para uma viagem de dois dias a Pernambuco, para lançar projetos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).
Ontem, integrantes da cúpula do governo demonstraram preocupação com a situação da ministra. Acham que ela pode ficar difícil diante da confirmação que técnicos da Casa Civil estavam reunindo munição para atacar a oposição na CPI dos Cartões Corporativos.
Ao tomar conhecimento sobre o modelo do documento vazado para a imprensa, com destaques para gastos da ex-primeira dama Ruth Cardoso, um ministro de Lula classificou a informação de gravíssima e disse que Dilma pode ser arrastada para o centro da crise.
Segundo esse auxiliar, o erro da Casa Civil foi admitir de saída que o documento vazara de dentro do Planalto antes de ter acesso a ele. Reservadamente, ele não descarta a hipótese de que alguém da oposição possa ter obtido o material e feito uma montagem para acusar o governo de elaborar um dossiê contra a família de FHC. Erenice disse a colegas que acha que um servidor da Casa Civil roubou os dados e decidiu entregá-los à oposição.

